Autor: VANGELIS
Música: Young Alexander"
BODISATIVA
Pegou na cestinha e foi dar um passeio na floresta. Subiu a Rua do Jade, costeando a colina até alcançar a Estrada da Seda. Foi andando por entre a relva molhada de bruma. A brisa da manhã erguia-lhe a ponta da túnica de um verde suave, cor de colo de onda, deixando ver o forro de cetim que lhe modelava o corpo esguio e elegante. Seu rosto formoso como um ídolo de marfim, era emoldurado por duas longas tranças morenas.
Era tempo de amoras. Ela colheu algumas no caminho, comeu-as e guardou outras na cestinha. Naquele dia ameno de quinta lua primaveril, as encostas estavam profusamente floridas. As flores, suadas de orvalho, pareciam um sorriso frágil no rosto da terra. Contornando o regato das garças, ela entrou na floresta que brilhava ao sol como uma jóia. Respirou fundo o ar puro da manhã e começou a cantar uma doce canção. Sua voz era fresca como o leve respingo das cascatas. Tão clara e melodiosa que os Imortais se inclinavam sobre as nuvens só para escutá-la.
Caminhou pela floresta de encantamento em encantamento, até que de repente o vento lhe trouxe a música de uma flauta. Doçura de Pérola calou-se e ficou atenta ouvindo a suave melodia.
_Será algum Deus da mata?_ pensou ela, fascinada.
Interrogou uma rosa branca, e não obteve resposta. Mas não se passou muito tempo e um anãozinho vermelho surgiu entre as árvores. Tinha um rosto sóbrio e as sobrancelhas ruivas, pareciam biombos de fino bambu, caindo-lhe sobre os olhos. Vestia uma túnica de seda carmesim bordada de círculos floridos. Na cabeça usava um gorrinho pontudo, também carmesim.
Chegando-se a ela, com a flauta na mão, o anãozinho falou:
_ Bom dia, Doçura de Pérola! Sou o emissário do Senhor das Regiões Sombrias. Nosso rei admira a tua alma compassiva e convida-te para visitar o reino de Fou Tu Chan.
Sendo o convite bem inesperado, ela continuou calada. As palavras do anãozinho, no entanto, ficaram fervilhando no seu pensamento. Era a primeira vez que ouvia falar no reino de Fou Tu Chan e não possuía nenhum vago conhecimento do mesmo. Contudo, começou a sentir um grande desejo de visitar o reino misterioso.
_ O que diz a jovem senhora? _ insistiu o anãozinho.
Pronunciou esta frase num tom jovial e rematou-a com um sorriso muito amável. Então, ela respondeu:
_ Falas como um Imortal, honorável senhor, portanto aceito o convite do rei de Fou Tu Chan!
_ Então, vamos! _ falou o anãozinho todo contente. _ Nosso rei espera-a além da Ponte de Ouro de Pou Tien.
_ Não vás! É perigoso! _ disse um pardal com voz tão aguda que os peixes dourados que viviam num lago próximo, ergueram a cabeça fora d’água, perguntando o que sucedia.
Mas Doçura de Pérola não entendeu nem uma só palavra do que o pardal lhe dizia. E seguiu o anãozinho através da floresta.
Passaram por lindas montanhas de lápis-lazúli e seguiram sempre para o noroeste. Afinal chegaram a um vale estreito e solitário. Parecia um lugar povoado de espíritos malignos. Entretanto, a melodia da flauta do anãozinho era tão alegre que Doçura de Pérola não sentiu nenhum temor. Entraram na alameda dos pinheiros e a um lado do caminho avistaram um homem de meia-idade, sentado, imóvel com os olhos fechados. Ao seu lado havia duas lindas moças. Doçura de Pérola jamais vira criaturas tão belas nem tão ricamente vestidas. Uma era alta, tinha a pele dourada e os cabelos pretos e brilhantes como seda. Vestia uma túnica de cetim solferino bordada a prata. A outra era de estatura média e usava uma túnica de damasco branco. Tinha uma longa cabeleira cor de cobre enfeitada com grampos de esmeraldas, do mesmo tom dos seus olhos, meio oblíquos e misteriosos. Ambas acariciavam o homem murmurando doces palavras. Mas ele continuava sereno, alheio a tudo o que o rodeava.
Doçura de Pérola observou espantada que as moças deixavam aparecer sob longas vestes, a ponta de uma cauda tal e qual como a das raposas. Lembrou-se então, da velha lenda das raposas fantasmas. Lembrou-se estão, que o espectro das raposas tem o dom de adotar formas humanas, a fim de tentar a humanidade. Para isso elas buscavam um esqueleto de cavalo velho e seguravam-no um instante com a boca. Logo, a ossada começava a sua missão diabólica...
_ Quem é aquele homem? _ perguntou ela, apreensiva.
_ É o sábio Mi Pan _ respondeu o anãozinho. _ Aquelas mulheres são demônios que vieram interromper as suas meditações.
_ Ah! _ exclamou Doçura de Pérola assustada.
Mas o anãozinho recomeçou a tocar a flauta e continuou andando. Sob a magia daquela música alegre e vibrante Doçura de Pérola sentiu-se reconfortada. O medo e a melancolia desapareceram como por encanto e ela foi atrás dele. Chegaram afinal à Ponte de Ouro, sobre o Rio Vermelho. Estavam quase no meio quando foram obrigados a recuar, pois a multidão de criaturas ruidosas e disformes vinha correndo do outro lado.
_ Não tenha medo! _ exclamou o anãozinho. São almas que vão reencarnar no planeta Plutão, onde vivem os espíritos muito atrasados.
Assim que a ruidosa multidão desapareceu ao longe, eles continuaram o caminho. Do outro lado da ponte havia uma gruta. Entraram e, pouco depois, ela avistou a grande porta imperial do reino de Fou Tu Chan. Era laqueada de vermelho e guardada por dois gigantes. Tinham cerca de doze metro de altura e sua pele era cor de ameixa seca. Um deles possuía uma cabeça de touro com um único olho no meio da testa. O outro tinha a cabeça de um falcão.
Doçura de Pérola conservou-se bem quieta, observando tudo, com os olhos arregalados de espanto.
Uma das estranhas criaturas sem dizer palavra fez sinal para que entrassem.
O anãozinho empurrou a porta levemente e foi andando seguido por Doçura de Pérola. Entraram num amplo pátio redondo cercado por uma alta muralha de pedra. Depois descortinou-se aos olhos de ambos o mais grandioso monumento de que jamais ela ouvira falar.
_ Aquele é o palácio do Rei de Jade Negro! _ falou o anãozinho.
Era todo de ébano e alabastro. Tinha nove andares de altura descomunal. O anãozinho conduziu a visitante, através de aposentos riquíssimos, até o grande salão de honra, onde o Rei de Jade recebia os súditos e os amigos.
Das paredes forradas de brocado vermelho, pendiam fantásticos morcegos de prata, com olhos de turquesas. O teto era decorado de pintura de gênios estranhos. O assoalho era coberto com lajes de pórfiro encarnado.
No fundo do majestoso salão, sentado num trono de ouro, estava o rei Jade Negro. O grande senhor das regiões sombrias tinha uma figura imponente e bizarra. Magro, perfil agudo de ave pernalta, sua pele era alaranjada e os olhos brilhantes como rubis. Usava um riquíssimo traje de pedrarias faiscantes. Sua coroa era cravejada de enormes diamantes azuis.
Rodeado pelos príncipes e ministros da sua corte, ele sorriu ao ver entrar a visitante.
_ Seja bem-vinda ao reino de Fou Tu Chan._ exclamou ele.
Doçura de Pérola curvou-se diante do soberano e respondeu com uma tímida saudação. Reconheceu ao lado do rei o príncipe Ti Tsan _ o pai do culto infernal, o Duque de Tcha _ espião noturno que registra as insônias dos criminosos e muitos outros gênios do mal.
Contudo não teve medo. Sabia que em qualquer situação em que se encontrasse, o Divino Buda a protegeria.
A um sinal do rei, soou um gongo dourado. O chão se abriu, como por um milagre, e surgiu uma longa escadaria de mármore preto. O rei desceu do trono e falou:
_ Venha ver as cidades do mundo inferior. Assim, poderá conhecer melhor qual é a diferença entre o bem e o mal...
E começaram a descer.
Em nichos de um e outro lado viam-se grandes cântaros de ébano, cheios de ouro e pedras preciosas. Acima dos nichos, havia tochas de luz esbraseada iluminando o caminho. À medida que desciam o ar ia ficando mais pesado. A respiração de Doçura de Pérola tornou-se ofegante, e pelos seus pulmões penetraram emanações densas. Mas, invocando a proteção de Buda, ela reagiu conseguindo concentrar energias vigorosas que dissolveram o ambiente opressivo.
Mal atingiram o último degrau, ela avistou estarrecedor espetáculo. Havia ali uma multidão de seres horrendos e colados ao chão como répteis. Exalavam um odor de matéria pútrida. Tinham uma expressão rude, feroz e insolente. Um demônio gigante divertia-se em espeta-los comum sabre de dois gumes. Os seres gritavam procurando fugir mas eram logo dominados pelo demônio.
_ Esta é a primeira região infernal _ disse o rei de Jade _ o celeiro das almas retardadas no caminho da evolução.
Doçura de Pérola baixou os olhos em silêncio.
Continuaram andando pelas zonas abismais. Naquela viagem sombria de aprendizado, as surpresas eram inumeráveis. E assim, Doçura de Pérola viu desfiladeiros tenebrosos, matarias selvagens, rios e lagos de águas turvas, caminhos agressivos e sinuosos. O silêncio era quebrado de súbito por brados, soluços e gargalhadas satânicas. Quando alcançaram a segunda região, ela viu um demônio pálido, imóvel, com o corpo coberto de neve, sentado num trono de gelo. Em volta dele havia um lago gelado, e presas em gaiolas de cristal, estavam as cabeças violáceas de inúmeros seres, cujos dentes rangiam com um ruído sinistro.
_ Estas criaturas _ disse o Rei de Jade _ são os avaros e os ricaços implacáveis, que deixaram morrer de fome e de frio, à porta de seus palácios, os mendigos que suplicavam uma ajuda.
E seguiram andando pela rua escura e tortuosa. Penetraram num denso nevoeiro e saíram do outro lado, num extenso vale de solo pantanoso, onde centenas de mulheres acorrentadas estavam sendo torturadas. Inúmeros demônios de corpo encarnado arrancavam suas entranhas e substituíam-nas por brasas ardentes, recozendo a pele em seguida.
_ Quem são estas infelizes? _ perguntou ela, angustiada.
_ São as mulheres adúlteras e também aquelas que se negaram a ser mães, destruindo vidas em sua fase embrionária. Cumprem agora a sua pena, porque as almas que elas impediram de nascer assumiram no astral um aspecto deformado de larva humana. Mesmo mais tarde, quando renascerem, estas almas prejudicadas pelo egoísmo daqueles mulheres reproduzirão na matéria algo da deformação do astral.
Pouco adiante, ela avistou milhares de homens sendo torturados da mesma maneira que as mulheres.
_ Aqueles _ disse o Rei de Jade _ foram os parricidas e os infanticidas. Quando voltarem a reencarnar ficarão logo órfãos, e depois enfrentarão a prova de não poder criar descendentes. Para eles a impossibilidade de nascer o filho esperado, será uma grande tortura.
E continuaram andando pelas regiões sombrias. Súbito, Doçura de Pérola avistou um mar de sangue, onde se debatia uma multidão de seres, gritando desesperadamente. Por sobre as vagas havia uma barca com um demônio. Estava vestido de branco _ a cor do luto _ e usava um barrete pontudo. Quando os infelizes se aproximavam querendo escalar a barca, ele vazava-lhes os olhos, soltando gargalhadas de rude sadismo.
_ Estais assistindo ao suplício dos carrascos, dos criminosos e dos caluniadores. Aquele vestido de branco é Ti Fan, o gênio que preside os raios e as tempestades.
A outra região que avistaram era ainda mais horrenda. O demônio que a presidia, com sua face de ébano eriçada de pelos vermelhos, era o mais feio de todos os diabos. Sob suas ordens, inúmeros diabinhos estrangulavam as vítimas lentamente, com uma corda de seda dentada.
Doçura de Pérola sentiu uma espécie de náusea e tapou o rosto com as mãos.
_ Este seres _ falou o Rei de Jade _ foram os alcoólatras, criminosos, os devassos sensuais e sádicos. Não merecem a sua piedade.
E descendo os degraus de uma lúgubre escada, levou-a até o sétimo inferno onde as vítimas estavam sendo cozidas em grandes caldeirões, cheios de óleo fervendo.
Apontando para eles, o Rei de Jade disse:
_ Aqueles são os envenenadores...
Doçura de Pérola, com o coração cada vez mais triste chegou ao oitavo inferno, e viu um enorme cutelo que subia e descia, cortando em milhares de pedaços os corpos dos ladrões e assassinos.
Na nona região infernal, moinhos de ferro esmagavam os incendiários, enquanto que cães monstruosos latindo furiosamente, disputavam os membros sangrentos dos supliciados.
Chegaram enfim ao último dos dez infernos, onde os demônios arrancavam a língua dos mentirosos com grandes ferros em brasa.
_ “Ó Mi To Fo!” – exclamou ela _ (Ó Grande Buda!).
E começou a chorar. As lágrimas são coisas estranhas. Quando começam a correr, muitas vezes não querem mais parar.
_ Não chores _ disse o Rei de Jade. Estas almas não vieram aqui obrigadas por alguém onipotente, mas sim devido a uma atração natural entre os seres perversos. Estão sob a lei das correspondências vibratórias, em que os semelhantes atraem semelhantes...
_ E não há ninguém que possa aliviar os seus sofrimentos? _ perguntou ela, entre soluços.
_ Sim, os bodisatvas podem aliviar estes infelizes, pois têm o dom de poder integrar-se com seus sofrimentos, aliviando-os. Pagam assim, Juntamente com eles, parte do Karma das ações passadas destes pecadores.
_ Ah! Como eu gostaria de ser uma bodisatva! _ suspirou ela.
E caiu de joelhos, imersa numa prece fervorosa.
Após alguns instantes de meditação, descobriu no seu mundo interior um EU potente e divino. Sua consciência transbordou para além dos limites da matéria e identificou-se com a Vida Cósmica. Logo, seu rosto foi ficando luminoso e cristalino, num grau de pureza fascinante. Então, lentamente uma chuva de lótus brancos desceu sobre toda a terra; de região em região, escutava-se o grito de raiva dos demônios e o ruído dos instrumentos de tortura que se quebravam ao toque mágico dos lótus.
E as almas libertas, ajoelharam-se também e cantaram hinos de alegria.
Enquanto isso, no seu observatório celeste, lá no Pavilhão do Infinito, uma fênix fazia o registro dos Imortais, quando de súbito, avistou uma nuvem, azulada que se elevava da terra em direção ao nono céu.
_ O que será aquilo? _ disse a fênix espantada.
_ É Doçura de Pérola, cujas preces foram ouvidas pelos deuses e que vai se tornar uma bodisatva! _ falou uma pomba que acabava de chegar da terra.
_ Oh! Então precisamos preparar o rito da purificação!
_ O que devo fazer? _ indagou a pomba.
_ Ide de espaço em espaço _ respondeu a fênix _ de estrela em estrela, e colhei a essência pura dos astros e toda a música que houver no Alaúde de Prata da Lua. Voai até a orla do mar, e trazei a fina espuma das ondas. Depois, ide ao reino da aurora, no Pólo Celeste, e trazei as cores que brilham no manto encantado de Tau Um, a Deusa da Estrela Polar.
E a pomba partiu mais rápida do que o Vento Norte.
Algum tempo depois voltou com as encomendas. A fênix colocou tudo num jarro de jade verde, juntou alguns raios de sol, o orvalho de céu e algumas gotas da essência das rosas imortais, misturando bem com uma varinha de condão.
Murmurando encantações, ela molhou a ponta da asa direita na mistura celeste e dançou um bailado místico de profundo simbolismo.
E quando Doçura de Pérola chegou à Mansão Celestial, a fênix aspergiu-a com o perfume purificador. Depois, pediu-lhe que se ajoelhasse diante do altar do Buda Sorridente.
Doçura de Pérola inclinou a cabeça e orou. Quando terminou sua oração o sol inundou-a com seus raios, tecendo em volta uma roupagem mais linda que a de todas as rainhas. Floresceu em seus cabelos um lótus dourado de mil pétalas. Nisso, abriram-se as portas do santuário de cristal. Sobre ela brilhou numa luz prodigiosa.
Era o deus Kuan Shai Yin _ o enviado de Buda.
Doçura de Pérola sentiu que eu corpo se fundia inteiramente com aquela luz divina. E assim ela se transformou numa bodisatva _ o ser que atingiu o Nirvana, mas que voluntariamente recusa-o para salvar a humanidade.
Deste modo nasceu KUAN YIN, a maior divindade budista, o deus-deusa da misericórdia e do conhecimento, aquela que escuta e atende a todas as preces...
Lenda extraída do livro: LENDAS DO CELESTE IMPÉRIO ( Chiang Sing)
imagem por: C
láudio Gianfardoni